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Multiculturalismo na Era Global: entre a per-da de referências e a explosão de identidades

Quando foi a última vez que você sentiu que pertencia verdadeiramente a um lugar? Não apenas fisicamente, mas culturalmente...

Vivemos em tempos de transformações aceleradas. A globalização, a urbanização massiva e as novas tecnologias reconfiguraram não apenas nossa economia e política, mas também o nosso próprio modo de ser e de nos relacionarmos com o mundo. Neste cenário, o conceito de cultura, antes sólido e bem delimitado, dissolveu-se em múltiplas identidades, dando origem ao fenômeno que chamamos de multiculturalismo.

Mas o que realmente significa ser multicultural hoje? E como isso afeta nossa vida cotidiana, nossa escola, nosso trabalho e nossa cidadania?

Para entender o multiculturalismo, precisamos primeiro desconstruir a ideia tradicional de cultura. Antigamente, quando alguém dizia que uma pessoa era "culta", pensávamos em alguém que lia livros clássicos, frequentava teatros, entendia de artes plásticas e tinha um vasto repertório erudito. Essa visão, influenciada pela nobreza e pela elite intelectual, restringia a cultura a um pequeno grupo privilegiado. No entanto, essa definição é limitada e elitista.

De acordo com o filósofo Nicola Abbagnano, a cultura possui dois significados básicos. O primeiro, mais antigo, está ligado à formação do indivíduo, ao seu refinamento e aperfeiçoamento – aquilo que Francis Bacon chamava de "geórgica do espírito". O segundo significado, adotado por sociólogos e antropólogos, é muito mais amplo e democrático: a cultura é o conjunto de modos de vida criados, aprendidos e transmitidos de geração em geração pelos membros de uma sociedade. É nessa segunda definição que vamos nos basear.

Assim, a cultura deixa de ser um ornamento intelectual e passa a ser o alicerce da vida social. Ela inclui a língua, as crenças, as práticas cotidianas, as formas de produção, as relações políticas e hierárquicas, e até mesmo a maneira como nos relacionamos com a natureza. Em outras palavras: a cultura é a forma como cada sociedade produz sua sobrevivência e dá sentido ao mundo.

Como o próprio Abbagnano (2007) sintetiza, citando antropólogos como Malinowski, Kluckhohn e Kelly, Coon e Linton, a cultura é "um composto integral de instituições parcialmente autônomas e coordenadas" que satisfaz as necessidades do grupo social, ou ainda, "um sistema histórico de projetos de vida explícitos e implícitos que tendem a ser compartilhados por todos os membros de um grupo". Para Linton, citado por Abbagnano, a cultura é "um grupo organizado de respostas aprendidas, características de determinada sociedade".

A cultura é a expressão simbólica da forma como cada sociedade produz sua sobrevivência. Vivemos, portanto, em uma cultura globalizada.

Essa compreensão é fundamental porque rompe com a ideia de que cultura é algo externo ao cotidiano. Não, ela está nas ruas, no trabalho, na comida que comemos, na música que ouvimos e nas relações que estabelecemos.


 

A existência precede a essência: o que Sartre tem a ver com isso?

 

Para aprofundar nossa reflexão, precisamos visitar a filosofia, especialmente o existencialismo de Jean-Paul Sartre.

Sartre provocou o mundo filosófico com sua célebre afirmação: "A existência precede a essência". O que isso significa? Basicamente, que o ser humano não nasce com uma natureza ou essência pré-definida (como propunham os essencialistas, que acreditavam em características inatas dadas por Deus ou pela natureza). Ao contrário, somos uma uma folha em branco que vai sendo preenchida ao longo da vida, por meio de nossas experiências, escolhas e interações com o mundo.

Segundo Sartre, não há uma essência humana universal e eterna. Nós nos tornamos aquilo que somos através de nossa existência concreta: o lugar onde nascemos, a família que nos criou, a escola que frequentamos, as amizades que fizemos, as viagens que realizamos, os trabalhos que exercemos.

Mas Sartre não defende um determinismo passivo. Para ele, o ser humano é aquilo que ele faz daquilo que o mundo fez dele. Temos liberdade de escolha, mas sempre dentro de um conjunto de possibilidades que nos é dado.

Essa visão é libertadora, mas também angustiante. Se não temos uma essência pronta, somos responsáveis por construir nossa própria identidade – e isso inclui nossa cultura.

 

A relação entre cultura e território

Se a cultura se constrói na existência, ela está inevitavelmente ligada ao espaço que habitamos. Mas essa relação mudou drasticamente com a globalização.

Milton Santos, afirma que o território não é apenas um palco onde a vida social acontece. Ele é, ao mesmo tempo, resultado e condição dessa vida. Cada sociedade organiza seu espaço de acordo com suas necessidades materiais e simbólicas, criando uma territorialidade que expressa sua cultura, sua economia e sua política.

No período pré-globalização, existia uma identidade forte entre as pessoas e seu território. A cultura local era orgânica: a língua, os costumes, os alimentos, as relações de trabalho, tudo estava enraizado naquele espaço físico. Isso criava um profundo senso de pertencimento.

Mas essa "territorialidade absoluta" começou a se desfazer com a modernidade, especialmente a partir do século XX.

Até meados do século XX, os Estados-nação desempenhavam um papel central na construção da identidade cultural. Durante o período fordista, os governos buscavam forjar uma cultura nacional homogênea.

No Brasil, Getúlio Vargas foi um exemplo paradigmático. Ao proibir que rádios de fora do Rio de Janeiro tivessem difusão nacional, ele centralizou a produção cultural, promovendo o samba carioca como símbolo máximo da identidade brasileira. O objetivo era criar um "brasileiro típico", com valores, hábitos e símbolos comuns, para fortalecer a unidade nacional e evitar separatismos. No entanto, esse processo também teve seus efeitos colaterais. Culturas regionais, como o samba paulista, foram enfraquecidas. Como lamentou o sambista Osvaldinho da Cuíca, "São Paulo não é o túmulo do samba, é o túmulo da história do samba. O problema é que poucos resgatam essa história".

A partir da década de 1970, com a ascensão do toyotismo e da acumulação flexível, o Estado passa a ter um papel diferente. A cultura deixa de ser um projeto nacional e torna-se uma mercadoria regulada pelo mercado. O consumo cultural se fragmenta, abrindo espaço para nichos cada vez mais específicos.

Essa transição marca o fim de uma era e o início de outra: a pós-modernidade.

 

Pós-modernidade: a explosão das identidades

A pós-modernidade é a expressão cultural da globalização. Neste período, as identidades nacionais perdem força e são substituídas por uma miríade de "tribos urbanas" – grupos que se formam em torno de interesses, gostos e estilos de vida compartilhados.

Não somos mais apenas brasileiros, franceses ou americanos. Podemos ser, ao mesmo tempo, metaleiros, ciclistas, gamers, veganos, evangélicos, frequentadores de crossfit, e por aí vai. Essa fragmentação cria uma sensação de liberdade. Parece que podemos escolher nossa cultura, como quem escolhe uma roupa no armário. Mas essa liberdade tem um preço.

Segundo o sociólogo Benno Werlen, vivemos em uma "modernidade tardia" marcada pelo desencaixe entre o lugar onde estamos e nossa economia, nossa cultura e nossa política. As tradições, que antes forneciam um quadro estável de referências, são substituídas por justificações discursivas e racionais. Isso significa que, em vez de simplesmente herdar uma cultura, somos constantemente desafiados a justificar nossas escolhas, valores e comportamentos. E isso gera ansiedade, mas também criatividade.

Um dos motores dessa transformação é a urbanização massiva. A globalização acelerou o crescimento das cidades, criando as chamadas megacidades – com mais de 10 milhões de habitantes.

Viver em uma metrópole é uma experiência radicalmente diferente da vida no campo ou em pequenas cidades. Na metrópole, somos bombardeados por estímulos, confrontados com a diversidade e impelidos ao anonimato. O sociólogo Georg Simmel já observava esse fenômeno no início do século XX, ao descrever a "atitude blasé" (ou atitude de indiferença) como um mecanismo de defesa contra a sobrecarga de estímulos da vida urbana.

Na metrópole, não podemos nos envolver emocionalmente com cada pessoa que cruza nosso caminho. Se fizéssemos isso, ficaríamos psicologicamente exaustos. Assim, desenvolvemos uma indiferença protetora. Mas, ao mesmo tempo, essa indiferença nos aliena, criando um vazio existencial.

É nesse contexto que os grupos identitários ganham importância. Eles oferecem laços de pertencimento e solidariedade em meio ao anonimato. Por isso, vemos o florescimento de tantos grupos e tribos urbanas: eles são refúgios contra a atomização social.

 

O paradoxo cultural da globalização

A globalização, portanto, gera movimentos contraditórios. Por um lado, homogeneíza: as cidades se parecem cada vez mais, com os mesmos shoppings, redes de fast-food e marcas globais. Por outro lado, fragmenta e diversifica, criando inúmeras identidades particulares.

O antropólogo Néstor García-Canclini questiona: "Continuam existindo na Cidade do México, em São Paulo ou em Buenos Aires conjuntos peculiares de traços que permitam identificar seus habitantes como chilangos, paulistanos ou portenhos?". A resposta é ambígua. Sim e não.

Sim, porque ainda há particularidades culturais, culinárias, linguísticas e históricas. Não, porque a vida social urbana é cada vez mais mediada por experiências globais, como as redes sociais, o cinema internacional, as séries de TV e o consumo de marcas mundiais.

O indivíduo pós-moderno é, ao mesmo tempo, global e local. Ele se reconhece em qualquer outra grande cidade, mas também se apega a suas pequenas tribos. Ele é um cidadão do mundo, mas busca desesperadamente uma identidade singular.

Diante dessa fragmentação, falamos hoje em "multiculturalismo". Mas o que isso realmente significa? Para alguns, multiculturalismo é a celebração da diversidade, o reconhecimento de que diferentes grupos têm o direito de expressar suas culturas e viver conforme seus valores. Sob essa ótica, o multiculturalismo é progressista e emancipador.

No entanto, o filósofo Fredric Jameson oferece uma visão mais crítica. Para ele, o multiculturalismo é um sintoma da alienação pós-moderna. A fragmentação entre nossa subjetividade e as condições objetivas de vida nos faz acreditar que podemos escolher nossa cultura livremente, mas essa escolha ocorre dentro de um sistema que já colonizou todas as esferas da existência. Segundo Jameson, a globalização do capital retira do sujeito o senso de localização. Não sabemos mais de onde vêm nossos objetos, quem os produziu, em que condições. Isso confere a eles um caráter mágico, opaco. E o mesmo ocorre com nossa cultura, no qual, ela parece descolada da realidade material, como se fosse uma mera opção estética ou comportamental.

 

“Estamos submersos no que são, a partir de agora, volumes dilatados e saturados a um ponto que nossos próprios corpos pós-modernos estão desprovidos de coordenadas espaciais.” Fredric Jameson

 

Para Jameson, a cultura pós-moderna não é uma forma de resistência. Ela é, na verdade, uma forma de cooptação. Ao acharmos que estamos exercendo nossa liberdade escolhendo uma tribo urbana, na verdade, estamos apenas consumindo mercadorias e reforçando a lógica do capital. Nesse sentido, ser punk, hip-hop, evangélico, ou torcedor de um time, exige o consumo de determinadas roupas, música, livros, símbolos, ingressos, etc. A identidade é construída via consumo.

 

Consumo e cidadania na era multicultural

Essa centralidade do consumo tem consequências profundas para nossa noção de cidadania. No mundo fordista, cidadania estava associada a direitos básicos, garantidos pelo Estado, tais como saúde, educação, emprego, previdência. A igualdade era valorizada como um princípio de justiça. Na pós-modernidade, a cidadania se redefine. Não basta ter direitos básicos; é preciso ter acesso ao mundo globalizado e o acesso a tudo isso se dá, fundamentalmente, pelo consumo.

Assim, consumir torna-se um ato político e simbólico. Ao comprar um smartphone, um tênis de marca, ou um ingresso para um show, estamos exercendo nossa cidadania, afirmando nossa identidade e nosso pertencimento a determinados grupos.

Essa mudança ambígua, por um lado, ela amplia nossas possibilidades de expressão, mas, por outro, reduz a cidadania a uma questão de poder de compra, aprofundando desigualdades. Afinal, quem não pode consumir, como pode exercer sua cidadania na pós-modernidade?

 

Os desafios para a educação

Este cenário multicultural apresenta desafios imensos para a educação. Os alunos de hoje são filhos da globalização e da pós-modernidade. Suas referências simbólicas são diferentes das gerações anteriores. Eles nasceram imersos na cultura digital, no consumo de entretenimento global, nas redes sociais. Para eles, a identidade é fluida, mutável, construída por escolhas e pertencimentos. Já o professor, muitas vezes, pertence a uma geração que ainda se identifica com a cultura nacional, com valores mais estáveis e um sentido de pertencimento territorial. Esse abismo geracional pode dificultar o diálogo em sala de aula. Não se trata de exigir que o professor se adapte unilateralmente, como se fosse um prestador de serviços. Isso seria um desrespeito à sua formação e biografia. Mas é fundamental que o educador compreenda o estoque simbólico de seus alunos para criar pontes de comunicação.

O papel da educação é, justamente, transmitir técnicas culturais, ensinar como funciona a sociedade e como nela se inserir de forma crítica e autônoma. Mas para isso, é necessário que professores e alunos dialoguem. E o diálogo só é possível quando ambos os lados se esforçam para compreender as referências e os valores do outro.

 

Resistência: o que podemos fazer?

Vivemos tempos difíceis. A globalização, o multiculturalismo e a fragmentação identitária nos oferecem liberdade, mas também nos deixam desorientados. O nacionalismo xenófobo, o fundamentalismo religioso e a rejeição ao diferente são reações a esse vazio existencial.

No entanto, não podemos simplesmente lamentar a perda das velhas referências. Precisamos compreender o mundo em que vivemos e construir novas formas de pertencimento e solidariedade. Isso exige:

 

  • Reconhecimento: aceitar que a diversidade é um fato consumado e que não há como voltar ao passado.

  • Diálogo: aprender a ouvir e a se comunicar com pessoas que têm valores e culturas diferentes.

  • Criticidade: não aceitar passivamente a lógica do consumo como única forma de expressão e cidadania.

  • Criatividade: construir novas narrativas, novos símbolos e novas formas de convivência que sejam mais justas e inclusivas.

 

A educação tem um papel central nesse processo. Ela pode ser um espaço de construção dessas novas subjetividades, onde o aluno aprenda não apenas conteúdos, mas também a se relacionar com a diferença, a questionar o consumo desenfreado e a buscar formas autênticas de expressão.

O multiculturalismo não é um fim, mas um processo. Ele reflete as contradições de nosso tempo. Não há respostas prontas. Mas há um caminho a ser trilhado, caminho que exige diálogo, compreensão crítica e da construção coletiva. Como nos lembra Sartre, não importa o que o mundo fez de nós, mas o que fazemos daquilo que o mundo fez de nós. Cabe a cada um de nós, assumir a responsabilidade de construir uma cultura mais plural, justa e humana. E isso começa hoje, com uma conversa, uma escuta atenta, uma reflexão sobre nossas próprias escolhas e sobre o mundo que queremos deixar para as próximas gerações.

O multiculturalismo é um desafio, sim. Mas também é uma oportunidade de reinventarmos o que significa ser humano, juntos.

 

Referências 

 

  • ABBAGNANO, N. Dicionário de Filosofia. São Paulo: Martins Fontes, 2007.

  • GARCÍA-CANCLINI, N. Consumidores e Cidadãos: Conflitos Multiculturais da Globalização. Rio de Janeiro: UFRJ, 2001.

  • GILES, T. História do Existencialismo. São Paulo: EPU, 1989.

  • JAMESON, F. Pós-modernismo: A Lógica Cultural do Capitalismo Tardio. São Paulo: Ática, 1996.

  • SANTOS, M. A Natureza do Espaço: Técnica e Tempo, Razão e Emoção. São Paulo: Hucitec, 2004.

  • SANTOS, M. Por uma Outra Globalização: Do Pensamento Único à Consciência Universal. Rio de Janeiro: Record, 2000.

  • SIMMEL, G. A Metrópole e a Vida Mental. São Paulo: Editora da USP, 1967.

 
 
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